Graduada em Pedagogia, pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), no Brasil, o contacto com a pedagogia Waldorf, em 1979, mudou o rumo de Luíza Lameirão, que passou a dedicar-se à educação de crianças. Foi cofundadora do colégio Waldorf Micael, onde foi jardineira de infância, professora de classe e de manualidades e durante 22 anos, coordenou o Centro de Formação de Professores Waldorf em São Paulo.
Atualmente, é consultora em escolas de todo o Brasil, além de partilhar a sua larga experiência com educadores comunitários, médicos e terapeutas e é uma das professoras convidadas do curso da Associação Percurso Waldorf, em Lisboa, cujo novo ano letivo começa a 3 de outubro. Em entrevista ao Integrall, afirma que os adultos perderam características de criança, como a persistência, confiança e a abertura e garante que “as crianças são capazes de se tornarem as nossas próprias educadoras”.
Integrall: A Luísa formou-se em Educação na Universidade de São Paulo (USP), em 1974 e cinco anos depois conheceu a pedagogia Waldorf. Em que é que isso mudou a sua vida enquanto pedagoga?
Luíza Lameirão: Na Faculdade de Pedagogia, a professora de Didática disse que havia mais uma escola, “muito esquisita” – foi o nome que ela usou – e que era a única no Brasil, mas não podia dizer mais nada porque não a conhecia. Como era muito jovem e estava infeliz com o que estava a aprender, na USP, eu quis conhecer esse lugar. Quando tentei foi difícil, não me abriam os portões, demorou um tempo, mas consegui conhecer a escola, através de uma família, conhecida da minha cunhada, que tinha os filhos lá. Entretanto, tive o meu primeiro filho, em 1974, ou seja, terminei a faculdade e tive um bebé, tendo ficado em casa com ele, durante três anos e quando fui procurar um lugar para colocá-lo, imaginei que o queria pôr na escola Waldorf, mas não havia vagas. Fui aos jardins particulares, que havia ao redor da grande escola, um deles agradou-me e pus o meu filho lá.
“Toda a questão metodológica, toda a questão do conhecimento da criança (na universidade) era muito precária”
Integrall: O que é que não estava a gostar na Universidade de São Paulo?
Luíza Lameirão: Eu vivi um tempo bem difícil, na Universidade de São Paulo, que era o tempo do AI5, no Brasil, uma determinação governamental que proibia todo o tipo de manifestação política nas universidades. Não podíamos conversar no pátio nem na relva do campus da universidade, que é linda, cheia de vegetação mas era impossível porque a polícia estava sempre ali. Além disso, o curso baseava-se em realidades históricas – a História da Educação foi muito bem dada, a Filosofia da Educação, também, mas, toda a questão metodológica, toda a questão do conhecimento da criança era muito precária e eu fui procurando outras vertentes.
No ensino médio, eu tinha alfabetizado adultos pelo método Paulo Freire e então, fui convidada para substituir a filha dele, quando ficou grávida, na escola em que ela trabalhava. Quando pus meu filho no Jardim das Amoras, em setembro desse ano, o grupo que lidava com esse jardim de infância resolveu fazer uma continuidade, porque a única escola Waldorf, no Brasil, estava superlotada e não tinha vagas para as crianças que saíam dali.
Integrall: Então, foi para lá trabalhar?
Luíza Lameirão: Sim, em setembro de 1977, como professora.
Integrall: A pedagogia Waldorf não era estudada na Universidade de São Paulo?
Luíza Lameirão: Não.

Percurso Waldorf em Lisboa/DR
Integrall: A Luíza nunca chegou a dar aulas no ensino regular, no Brasil?
Luíza Lameirão: Eu dei aulas, temporariamente, mas nunca assumi um trabalho na escola regular. Nos tempos de faculdade, trabalhei, também, num colégio de aplicação, vinculado à Universidade Católica, em São Paulo, que tinha uma escola orientada pela Faculdade de Educação; fui procurando conhecer o máximo que podia, mas tendo o meu filho em casa três anos, soube que havia um grupo de estudos para pais e no ano seguinte, eu tinha a intenção de fazer o seminário de formação de um ano só que não tive nem tempo para isso, pois, entretanto, já tinha assumido uma classe de jardim de infância.
Integrall: Porque é que escolheu a Educação de crianças?
Luíza Lameirão: Eu fui tia aos 12 anos e amei ter aquela criança, com quem eu, basicamente, brincava e quando fui fazer a inscrição para o vestibular – equivalente ao concurso nacional de acesso, em Portugal – para entrar na faculdade, eu tinha certeza que iria fazer Economia – eu adoro Matemática e queria juntar o âmbito das Ciências Exatas com as Humanas, mas quando estava a folhear o formulário, pensei que gostava tanto de crianças e como não tinha feito nenhum curso para me preparar para esse exame eu, então decidi ir para Pedagogia.
Integrall: Trabalhou com crianças de todas as idades nas escolas Waldorf?
Luíza Lameirão: Eu trabalhei com crianças de três anos e meio/quatro anos, depois tornei-me professora de classe, onde tinha crianças de seis/sete anos e fui com elas até ao quinto ano, ou seja, até aos 11 anos de idade.
Integrall: Trabalhou como professora de classe e como jardineira de infância. Porque é que nas escolas Waldorf os educadores de são chamados de jardineiros de infância?
Luíza Lameirão: Porque a criança é criada num jardim.
Integrall: A Luíza diz que até aos três anos a criança ainda não é filha dos homens. Porquê?
Luíza Lameirão: Porque ela aprende três habilidades, que a humanizam, por características que ela não aprendeu com seres humanos, mas que trouxe da sua vida pré-natal.

Integrall: Que habilidades?
Luíza Lameirão: Persistência, confiança e abertura. Um ser humano não ensina estas habilidades a uma criança recém-nascida, porque ele não as sabe com a grandeza com que a criança as sabe.
Integrall: E a partir dos três anos?
Luíza Lameirão: A partir dos três anos, o ser humano – não só o profissional de educação – mas qualquer um que esteja ao lado de uma criança, pode ensiná-la, pois qualquer um é um educador.
Integrall: Porque é que os primeiros sete anos de vida são tão importantes?
Luíza Lameirão: Porque, nesse período, a criança faz uma tarefa que é para toda a vida ela: trabalha a sua casa terrestre, que é o seu próprio corpo, para deixá-lo como quer habitá-lo.
Integrall: Se os primeiros sete anos forem menos bons, terão consequências para a vida?
Luíza Lameirão: Às vezes, é involuntário e ainda bem; se fosse voluntário, seria trágico, mas, de qualquer maneira, apesar de nada ser irreversível, será desafiador.
“As crianças imitam as pessoas com quem se identificam, mas à sua maneira e a partir daquilo que querem transformar”
Integrall: As crianças aprendem imitando…
Luíza Lameirão: Sim.
Integrall: Nesse sentido, é preciso que tenham bons modelos para imitar?
Luíza Lameirão: É preciso que tenham bons modelos para imitar e esses bons modelos são fruto de um ser humano que se transforma. As crianças imitam as pessoas com quem se identificam, mas à sua maneira e a partir daquilo que querem transformar. Elas identificam-se com seres humanos, que não estão estáticos, parados, mas que estão a caminho.
“Eu confio na possibilidade de que o ser humano adulto possa tomar as rédeas na sua mão e modificar a própria vida”
Integrall: Nada é irreversível, mas os primeiros anos acabam por moldar o nosso destino…
Luíza Lameirão: Moldam, mas, na verdade, eu confio que uma educação posterior possa melhorar. Eu confio na possibilidade de que o ser humano adulto possa tomar as rédeas na sua mão e modificar a própria vida.
“Um educador deve acolher as crianças numa atitude de completa abertura”
Integrall: Como é que um educador deve acolher as crianças que lhe chegam? Qual é que deve ser a sua atitude?
Luíza Lameirão: De abertura, de completa abertura.
Integrall: Qual é a postura ideal do educador de infância?
Luíza Lameirão: É a de poder acolher a criança que lhe chega e que, nesse acolhimento, mostrar que ela é benquista.
“Educar significa ser um educador de si mesmo”
Integrall: O que significa educar?
Luíza Lameirão: Essa é uma pergunta que ouvimos, incondicionalmente, quando se fala de Educação. No fundo, para mim, educar significa ser um educador de si mesmo. Portanto, primeiro, o educador começa por si mesmo e só depois é que está apto para educar outro ser humano. Além disso, é importante que, constantemente ele se vá educando, se vá reciclando.
Integrall: A aprendizagem hoje em dia depende muito de como o educador desenvolve amor por todos os seres humanos?
Luíza Lameirão: Com certeza. A criança que é benquista, percebe que o mundo é bom e que a acolhe. Ela vai desenvolver amor pelo mundo na medida em que ela é percebida e na medida em que o educador a ensine a perceber o mundo.
Integrall: Como é que se deve ensinar uma criança?
Luíza Lameirão: Esse é o caminho quando a criança entra para a escolaridade e a partir dos sete anos, ela tem como recurso o despertar do interesse pela natureza, por outros seres humanos, pelos animais, pelos vegetais, pelos minerais.
Integrall: Nas escolas Waldorf, as crianças aprendem pela observação direta e pela experimentação?
Luíza Lameirão: Sim, pela observação direta, mas sempre orientada pelo educador. Já a experimentação depende de compreender vivências pela lógica, que o ser humano só desenvolve a partir dos 12 anos.
“A criança é nutrida pela voz da educadora que canta, faz pequenos poemas e conta histórias”
Integrall: Como é que é uma aula num jardim de infância Waldorf?
Luíza Lameirão: Primeiro, não é uma aula, é uma manhã em conjunto, em que a criança a tem oportunidade de brincar, espontaneamente, tanto no ambiente interno como no ambiente externo. Do ponto de vista orgânico, ela é alimentada num lanche bem feito, com coisas naturais, mas é, também, nutrida pela voz da educadora que canta, que faz pequenos poemas e que conta histórias.
“O momento em que a criança define ao que vai brincar é o momento em que ela toma, pela primeira vez, uma decisão própria na vida”
Integrall: Qual é a importância da brincadeira livre?
Luíza Lameirão: A brincadeira livre o grande momento em que a criança pode, ao mover-se, adquirir certas habilidades e tudo isso culmina na possibilidade de definir ao que vai brincar. O momento em que a criança define ao que vai brincar é o momento em que ela toma, pela primeira vez, uma decisão própria na vida.
Integrall: Qual é a importância de a criança ter momentos de tédio?
Luíza Lameirão: Não é que sejam importantes, esses momentos, simplesmente, acontecem. O tédio surge por volta dos cinco anos de idade e esse é o momento de a criança se perguntar, de perguntar à educadora: “o que é que eu faço agora”?
Integrall: O que é que a educadora deve responder?
Luíza Lameirão: Deve responder: “vem ajudar-me”. Então, enquanto a criança se liga ao que a educadora está a fazer, ela descobre o que é que ela quer. Quando um adulto se pergunta: “o que eu faço agora?” é porque ele quer planear algo e precisa de ter um tempo para esse planejamento -e é isso que a criança quer nos momentos de tédio.
“Os limites (das crianças) devem ser por hábitos saudáveis, especialmente de alimentação, de sono, de relação entre crianças e adultos e das crianças entre si”
Integrall: Como é que se deve dar limites às crianças no dia-a-dia?
Luíza Lameirão: Os limites devem ser por hábitos saudáveis, especialmente de alimentação, de sono, de relação entre crianças e adultos e das crianças entre si.
Integrall: As crianças da escola Waldorf aprendem muito com os ritmos da natureza, do ano, da semana?
Luíza Lameirão: Com todos eles.
“Aprendi que as crianças são capazes de se tornarem as nossas próprias educadoras”
Integrall: O que é que a Luíza aprendeu com as crianças?
Luíza Lameirão: Aprendi que as crianças são capazes de se tornarem as nossas próprias educadoras.
Integrall: Que qualidades de criança é que os adultos perderam?
Luíza Lameirão: As três qualidades que proporcionam as conquistas básicas: nós, adultos, não somos persistentes, não somos confiantes e não somos abertos. Perdemos, também, a capacidade de compartilhar, entre seres humanos, decisões individuais que se possa levar a ações grupais.
Integrall: Por é que os seres humanos perderam essas características ao longo da vida?
Luíza Lameirão: Na verdade, precisamos passar por essa perda para poder reconquistá-la com consciência.
Integrall: Porquê?
Luíza Lameirão: Para poder fazer de novo com consciência.

crianças são capazes de se tornarem as nossas próprias educadoras”/DR
Integrall: Rudolf Steiner, o fundador da pedagogia Waldorf, queria transformar a maneira de educar. Em que ponto é que estamos dessa vontade nos dias que correm?
Luíza Lameirão: Em muitas coisas, estamos muito longe e a pedagogia Waldorf já tem 100 anos de existência, mas isso não garante que tenha chegado a um ponto. Na verdade, cada nova realidade vai exigir outra coisa e corremos o risco de repetir algo, porque já foi feito. No momento atual talvez não fosse necessário.
Integrall: O quê, por exemplo?
Luíza Lameirão: A maneira como as atividades criam rituais, sendo que há alguns, que pertenceram ao início da pedagogia Waldorf, que já não cabem nos dias de hoje. Deviam ser atualizados.
Integrall: Em Portugal, as escolas de Waldorf vão até ao oitavo ano, mas, no Brasil, a par de outros países mundiais, há ensino secundário e até universitário. Ainda há um longo caminho a percorrer para difundir este ensino em Portugal?
Luíza Lameirão: Sim. No Brasil, a pedagogia Waldorf é mais antiga do que em Portugal e tem uma quantidade enorme de escolas, também porque é do tamanho de um continente. O Brasil é, de facto, um dos países onde a pedagogia Waldorf mais cresce, por várias razões. Uma delas é alheia à pedagogia Waldorf porque a nossa educação pública é muito pobre e precária atualmente, o que não aconteceu quando eu frequentei a escola pública – nessa altura era tudo muito bom. Agora, é muito precária e por isso, os pais querem outra coisa para os seus filhos. Porque é que querem a pedagogia Waldorf? Porque, no Brasil, há uma abertura em participar de algo que está a começar, mesmo sem a certeza de onde vai desembocar.
“Os jovens atualmente sofrem a impossibilidade de, por conta própria, encontrar o que querem realizar na vida”
Integrall: O que é que os países teriam a ganhar em ter mais escolas de Waldorf?
Luíza Lameirão: Os jovens atualmente sofrem a impossibilidade de, por conta própria, encontrar o que querem realizar na vida e ou se tornam muito pouco vinculados a tudo, deprimem e alheiam-se da realidade ou tornam-se violentos. Então, o ensino secundário, na verdade, é super importante nessa fase.
Integrall: Os países ganhariam um ensino mais amoroso e mais humanitário?
Luíza Lameirão: O ensino amoroso é típico do que vai da primária até os 12 anos. Esse ensino, sim, precisa desenvolver amor pelo mundo, o que significa interessar-se pelo mundo. Depois, o jovem ele quer encontrar uma maneira de se colocar no mundo e essa maneira de se colocar no mundo precisaria ser a partir daquilo que o jovem decide que quer transformar no mundo.
Integrall: Que seres humanos é que se tornam as crianças Waldorf que acompanhou ao longo da sua carreira?
Luíza Lameirão: A minha vivência, com os seres humanos que acompanhei como professora e também, os meus dois filhos, é que, em primeiro lugar, tornam-se extremamente sociáveis e depois, formam um grupo coeso e isso é um ganho enorme nos dias de hoje. Outra coisa é que são criativos e não se subjugam aos padrões externos.
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