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    Isa Silvestre tem uma clínica de psicologia em Lisboa/DR

    Recomeçar sem transformar o regresso numa nova exigência

    Foto do médico Carlos Veiga publicada no seu site de Coerência Bioemocional/DR

    “Lembro-me da sensação de morrer. Era muito agradável.”  

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Início Bem-Estar

Amálgama: “A nossa metodologia de dança potencializa o ser em toda a sua unidade: corpo, mente, alma e espírito”

por Sandra Xavier
Setembro 17, 2026
em Bem-Estar
Alexandra Battaglia criou a companhia de dança Amálgama/ créditos: Mariana Morais

Alexandra Battaglia criou a companhia de dança Amálgama/ créditos: Mariana Morais

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O movimento está-lhe no sague e na alma. Filha de uma professora de dança e de piano e aluna de Margarida de Abreu, uma das pioneiras da dança, em Portugal, Alexandra Battaglia é, aos 62 anos, ela própria, uma referência nacional. Fez o Conservatório de dança, uma pós-graduação em Estudos Orientais, na Universidade de Letras, em Lisboa e um mestrado em Metodologias Artísticas, ao mesmo tempo que criava a Amálgama, companhia e associação cultural, pioneira a levar a dança a muitos locais do património nacional e da natureza profunda. Nos próximos dias 26 e 27 de setembro, tem um espetáculo marcado para o XI Festival Palco Mundo, em Mafra.

Integrall: Há quanto tempo existe a Terra da Fonte?

Alexandra Battaglia: A Terra da Fonte é um vale familiar de artistas e cuidadores da natureza e também de protetores dos animais, que existe, oficialmente, desde 2000, embora tenhamos saído de Lisboa antes da pandemia para viver ali – procurámos um lugar perto da capital que pudesse acolher não só a família, mas, também, as artes e os ofícios a que estamos ligados.

“A Terra da Fonte é um vale familiar de artistas e cuidadores da natureza e também de protetores dos animais”

Integrall: Portanto, a Terra da Fonte é um espaço familiar, onde a natureza e a arte se fundem, mas que é aberto ao público em geral…

Alexandra Battaglia: Exatamente.
Inicialmente, o espaço demorou algum tempo a ser limpo, uma vez que é uma zona natural, que tem proteção florestal e rural – foi preciso limpar todos os terrenos, tirar o lixo que as pessoas deixavam, proteger todo o património natural que ali existia e depois, partir para a construção, onde havia ruínas. O processo durou uns cinco/seis anos, pelo que, oficialmente conseguimos, em 2020, começar a fazer eventos e abri-lo para a comunidade.

“Procurávamos um vale que pudesse criar condições para que a arte se pudesse expandir em espaços naturais”

Alexandra Battaglia e a família mudaram-se para a Terra da Fonte em 2019/DR

Integrall: Quando a vossa família foi viver para ali já foi com o intuito de ter um espaço aberto à comunidade?

Alexandra Battaglia: Sim, a Amálgama, companhia de dança e associação cultural está ligada a mim; é um pouco a minha extensão e obviamente que a minha família é um grande apoio. Nesse sentido, a Amálgama veio, também, para a Terra da Fonte porque, nós procurávamos um lugar, não só para viver, mas onde pudéssemos expandir os princípios fundamentais em que acreditamos: aquilo que fazemos é um prolongamento de nós e, portanto, nós procurávamos um vale que pudesse criar condições para que a arte se pudesse expandir em espaços naturais e por isso, quando saímos de Lisboa queríamos um espaço com essas características: acolher a continuidade de um trabalho artístico, mas inserido na natureza.

A companhia de dança Amálgama “cruza as práticas ambientais, os princípios taoístas e a relação com a natureza”

Integrall: A Amálgama faz muitos espetáculos inseridos em cenários naturais….

Alexandra Battaglia: Sim, sobretudo. A Amálgama, companhia de dança, nasce em 2000, com o apoio da Escola de Medicina Tradicional de Chinesa, em Lisboa e com o apoio do Convento de São Paulo, no Redondo, Évora. Como companhia é um pouco diferente das comuns, pois, desde o início, cruza as práticas ambientais, os princípios taoístas e a relação com a natureza: é um trabalho junto da natureza e do património e de uma certa espiritualidade natural. A Amálgama desenvolveu uma série de criações e parcerias como companhia de dança, muitas delas na natureza e no património, portanto, podemos até considerar que talvez seja a companhia que mais trabalhou diretamente no património e na natureza.

A Amálgama foi pioneira a levar a dança a locais do património nacional e da natureza profunda/DR

Integrall: A Amálgama foi pioneira a levar a dança a muitos locais do património nacional e da natureza profunda?

Alexandra Battaglia: É verdade.

“A nossa relação com o património foi muito natural (…) esses lugares apareciam no nosso percurso e nós abraçávamo-los”

Integrall: Onde é que te inspiraste quando tiveste esta ideia?

Alexandra Battaglia: Não tive a ideia. Aconteceu, porque, repara, nós desenvolvemos a nossa linguagem, o nosso vocabulário, no convento de São Paulo, na Serra d´Ossa, que são lugares de natureza profunda, lugares de floresta, lugares de património natural – é um convento com 50 mil azulejos intactos, com toda a história da Bíblia e para além disso, a Serra d´ Ossa é um local virgem. A nossa relação com o património foi muito natural: o Palácio da Pena, em Sintra, o Convento de Cristo, em Tomar, o Palácio de Mafra, com a Tapada Nacional de Mafra, as florestas nacionais e outros lugares apareciam no nosso percurso; eles apareciam e nós abraçávamo-los. Nós gostávamos desses desafios, nós procurávamos ser uma companhia que se diferenciasse, que acreditasse ser mais humana e também, nesse sentido, a humanidade precisa de se aproximar da natureza, precisa de se aproximar das memórias, das suas raízes, do seu património. Não procurámos esses locais. O que aconteceu é que fomos desenvolvendo uma linguagem específica e cada vez mais, uma programação ligada a esses lugares. Ao mesmo tempo, tínhamos equipas que o aceitavam, porque nem todos os bailarinos se sujeitam a dançar em pedra, com os pés na terra, dentro de água, a subir a montanhas, mas nós tínhamos – e temos  – equipas que procuravam essa visceralidade do corpo, que se transforma através do movimento e produz uma comunicação estética e artística, que vai para além dos nossos umbigos. Para nós, foi uma paixão trabalhar com os lugares da natureza.

Integrall: E fazem-no há 26 anos…

Alexandra Battaglia: Sim.

“Criei, sem apoios, inicialmente, a primeira plataforma de intercâmbio artístico entre Portugal e Macau”

Integrall: Para além de Portugal, também fazem espetáculos no estrangeiro?

Alexandra Battaglia: Sim, a Amálgama, companhia de dança, apoia-se na Amálgama, associação cultural. Da própria Amálgama, companhia de dança, sai um braço, que é a academia Amálgama e a partir das metodologias que foram aparecendo e fomos estudando, estruturando, passámos para a comunidade. Neste trabalho com a comunidade, no património e na natureza, surgiu um convite para que eu fosse conhecer um grande projeto que Macau queria implementar nas ruas: uma grande parada artística, com mais de 700 artistas, sobretudo, das áreas performativas. Antes da parada, fui convidada para fazer um projeto com as comunidades de dança de Macau, no Festival de Artes de Macau e foi assim que tudo começou. Correu tão bem que, convidaram-me para fazer a parada; fui diretora artística desse trabalho e a partir daí, comecei a conhecer todo o tecido cultural de Macau e criei, sem apoios, inicialmente, a primeira plataforma de intercâmbio artístico entre Portugal e Macau, que durou desde 2011 a 2019, o ano da pandemia. Entretanto, lá em Macau, foi, também, criada uma associação e depois, recorremos a apoios, sobretudo, de Macau; Portugal não reconheceu a importância do projeto, considerando ser demasiado grande para poder apoiar. Na verdade, eu fui fazendo tudo sem apoios nacionais, aliás, continuei a fazê-los e cada vez maiores na sua envergadura. Nesses quase 10 anos estabeleci relações, também com Hong Kong e Taiwan, nomeadamente, com companhias que já estavam um bocadinho na crista da onda da ideia de dance ecology, ou seja, de dança inserida em espaços naturais. A dança tem evoluído bastante, não é só dança contemporânea, não é só improvisação; há um território híbrido na dança  e a Amálgama cria a dance fullness, uma prática ligada à linha contemporânea, mas em presença plena, que traz um debate com consciência de interiorização. Mais tarde, percebemos que já desenvolvíamos também esta linha híbrida da dance ecology. A ponte com Taiwan continuou durante a pandemia e neste momento, estamos a pensar em reativar a associação, em Macau – o Oriente sempre foi uma das nossas paixões.

A companhia de Alexandra Battaglia quer democratizar a dança de uma forma artística/ créditos: Gonçalo Pinheiro

“A nossa missão é a democratização da dança, mas de uma forma artística”

Integrall: A vossa missão é descentralizarem a dança e levarem-na a todos?

Alexandra Battaglia: Sim, sem dúvida. A nossa missão é a democratização da dança, mas de uma forma artística; que a arte seja acessível para todos, em práticas e processos regulares, sem que isso tenha que ser uma terapia ou um trabalho, propriamente, de inclusão, ou seja, acreditamos que a arte é importante para toda a comunidade e a todos deve chegar, por todos pode ser praticada, mas porque é arte – aqui há um reposicionamento um bocadinho diferente das práticas de inclusão.

“Uma metodologia em dança que faça o outro, libertar-se do que o amarra e a ser mais e melhor”

Integrall: Têm conseguido levar a vossa missão a bom porto?

Alexandra Battaglia: Temos conseguido manter-nos fiéis a nós – o que já não é mau- fiéis aos nossos princípios, fiéis à nossa àquilo que acreditamos, à nossa pesquisa e investigação de uma metodologia em dança que, realmente, potencializa o ser em toda a sua unidade: não só corpo, não só mente, mas, também a alma e o espírito e que faça o outro, libertar-se do que o amarra e a ser mais e melhor.

Integrall: Os espetáculos da Amálgama são feitos só por bailarinos profissionais ou também incluem os vossos alunos?

Alexandra Battaglia: Há vários tipos de espetáculos da Amálgama, uns só da companhia, que são profissionais e podem incluir músicos, cenógrafos, cantores, poetas e depois, há os espetáculos participativos em que trabalhamos com a comunidade e a convidamos a integrar criações em conjunto. Enfim, há muitas parcerias, diversificadas, que podem incluir bailarinos ou participantes não profissionais.

Integrall: Quais são os vossos próximos espetáculos?

Alexandra Battaglia: O próximo é o XI Festival Palco Mundo, que decorre a 26 e 27 de setembro, em Mafra.
Além disso, em setembro, abre o ano letivo e toda a programação e cursos de formação de dança criativa e de monitores de dance fullness – nós formamos professores.
No início de novembro, a Amálgama, companhia de dança, também foi convidada para participar no Festival Internacional dos Açores e trabalhar com a comunidade da ilha Rabo de Peixe: vai ser um grande desafio trabalhar com essa comunidade numa peça, que deixa skills (competências), ou seja, é também, uma formação, que culmina num espetáculo público.

A companhia de dança Amálgama participa, em setembro, no Festival Palco Mundo, em Mafra, uma ponte entre Portugal e Macau

A companhia de dança Amálgama vai ter um espetáculo no XI Festival Palco Mundo em Mafra/DR

Integrall: Voltando ao XI Festival Palco Mundo, é uma montra intercultural e eco sustentável…

Alexandra Battaglia: Sim, o Festival Palco Mundo nasce como um dos programas da plataforma Unitygate, que faz a ponte entre Portugal e Macau; é o tal projeto que se manteve, até aos dias de hoje e que tem como função mostrar artistas, produtos de autor, diferentes formas de estar na dança, performances que falem ou que evoquem tanto raízes culturais como olhares contemporâneos sobre as raízes culturais ou temáticas ecológicas e sustentáveis.
Esse festival tem não só uma performance, ao longo dos dois dias, mas também, um espaço de exposição que mostra os trabalhos de autor, artistas, produtos naturais, sustentáveis, palestras e workshops ligados às áreas da performance ou artes plásticas, dirigidos a toda a comunidade, inclusive à comunidade com condições especiais.

Integrall: É uma janela para o mundo e também, um espetáculo inclusivo.

Alexandra Battaglia: Sim, sem dúvida.

Integrall: Tudo inserido na natureza?

Alexandra Battaglia: Sim, no jardim do Cerco, em Mafra.

Integrall: Qual é o preço dos bilhetes?

Alexandra Battaglia: A entrada é gratuita gratuita.

Dance fullness da metodologia Amálgama, classes de formação de clássico holístico contemporâneo, pilates, bodywork ou sevilhanas são algumas das aulas da companhia de dança

Integrall: Que tipo de danças é possível aprender na Amálgama?

Alexandra Battaglia: A escola tem práticas, em Lisboa, na Escola Medicina Tradicional Chinesa, onde continuamos com os nossos “pais”, à segunda-feira, com uma aula aberta de dance fullness -uma aula do berço da metodologia Amálgama e que é dirigida a todos, ou seja, sem um nível específico e também, na Boutique da Cultura, com classes mais especializadas, que passam pela formação de clássico holístico contemporâneo, sempre uma vertente sistémica e laboratório criativo, conduzindo as práticas para uma formação artística.
Além da capital, temos aulas semanais, na Terra da Fonte, junto ao Cabeço de Montachique, onde já desenvolvemos o polo de aulas regulares e de alguns laboratórios e retiros. As aulas regulares passam por práticas de corpo somáticas sistémicas, desde pilates a bodywork; também por práticas de dança, que incluem o contemporâneo, o dance fullness, as sevilhanas e a dança criativa para crianças.

Integrall: Na Terra da Fonte também há workshops?

Alexandra Battaglia: Sim, há um programa de workshops que aprofunda e traz outras matérias, que nas aulas regulares não conseguimos tocar.

Integrall: E ainda fazem retiros…

Alexandra Battaglia: Exatamente. Esses retiros são realizados por nós ou acolhidos por artistas complementares ou outros profissionais da área do bem-estar.

Espaço Terra da Fonte recebe residências artísticas, incluindo uma candidatura vencedora da comunidade europeia

Integrall: Significa que um profissional pode alugar o espaço da Terra da Fonte para criar um retiro ou organizar um evento?

Alexandra Battaglia: Sim, a Terra da Fonte é um espaço espaço aberto e versátil, onde temos, também, residências artísticas, que acolhem artistas do estrangeiro, que vêm trabalhar com quem tiver interessado, em Portugal. Já tivemos, inclusive, uma candidatura ganha da comunidade europeia que acolheu, durante 45 meses, artistas de outras nacionalidades que ficaram, na Terra da Fonte e combinou exposições e performances.

Integrall: Qual é vossa a capacidade para acolher residências artísticas?

Alexandra Battaglia: A Terra da Fonte não está muito interessada em grandes grupos pela preservação do ambiente e da qualidade do próprio ambiente e também porque é um vale familiar, mas conseguimos acolher, num apartamento privado, cerca de oito a dez pessoas.

“Esta aproximação à natureza não é uma moda, é uma urgência, é uma vital tomada de consciência”

Alexandra Battaglia e os seus bailarinos dançam em plena comunhão com a naureza/DR

Integrall: Qual é a importância de ter esta panóplia de atividades em plena natureza?

Alexandra Battaglia: Eu acho que é extremamente importante. Há um movimento de alguns anos a esta parte que escolhe a descentralização das artes, não só pela importância que tem, no país, de divulgar a cultura geral, mas porque a cidade já se tornou um pouco densa para algum tipo de trabalho. Por outro lado, há uma procura de artistas, pensadores e educadores neste resgate à natureza e neste resgate eco-humano. Esta aproximação à natureza não é uma moda, é uma urgência, é uma vital tomada de consciência, porque a humanidade certamente já chegou a um estado de ganância e de autodestruição, que é preciso resgatar não só as práticas artísticas, mas a própria educação e a própria consciência em geral da importância que têm a natureza, os animais e o sentimento de pertença à natureza. Não somos superiores, mas pertencemos a este planeta. Neste sentido, a saída dos espaços urbanos para os espaços rurais não só contribui para o desenvolvimento cultural desses espaços e da sua valorização, mas também obriga ou desafia os artistas e as pessoas, em geral, a repensar a vida, a sua própria arte e a expressão dessa arte na sociedade.

“A saída para os espaços rurais obriga ou desafia os artistas a repensar a vida, a sua própria arte e a expressão dessa arte na sociedade”

Integrall: Esse é um fator que vos diferencia?

Alexandra Battaglia: Eu acho que sim.

Integrall: Quem é que procura a Terra da Fonte?

Alexandra Battaglia: Eu acho que são pessoas que já estão num estado de consciência diferenciado e que querem aproximar-se dos espaços rurais, que valorizam a natureza, que valorizam a qualidade artística, o bem-estar, a ética e gostam de aprender em ambientes que contribuam para o seu desenvolvimento humano também.

“Saibamos viver com a beleza, com a riqueza e com a generosidade que a natureza nos oferece. Eu penso que a humanidade não tem muito mais saídas, neste momento, senão fazer algum silêncio e perceber quem é e para onde vai”

Integrall: São muitos os benefícios do contato com a natureza…

Alexandra Battaglia: Os benefícios são muitos porque a natureza obriga-nos a ser menos egoístas, a entender que fazemos apenas parte  (dela), a entender que interdependente dela entender o que é respeito, o que é ética, o que é, inclusive, o amor, ela está lá incondicionalmente e transforma-nos; dissolve não só um pouco o nosso ego mas, as nossas tensões, as nossas couraças para que possamos estabelecer uma ligação com ela e compreender quem somo, de uma forma mais completa, entendendo, também, que somos seres eternos, que estamos aqui de passagem e que não devemos explorar nada porque nada nos pertence. Portanto, saibamos viver com a beleza, com a riqueza e com a generosidade que a natureza nos oferece. Eu penso que a humanidade não tem muito mais saídas, neste momento, senão fazer algum silêncio e perceber quem é e para onde vai.

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Contacto: integrall.geral@gmail.com

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