Com uma carreira consolidada na música e no teatro, João Dacosta e António Borges receberam, há três anos, o “papel” das suas vidas: criar a companhia ÉTOMBOM para a Amorama, Associação de Pais e Amigos de Deficientes Profundos, em que os atores são os utentes da instituição.
O Integrall esteve à conversa com os dois encenadores e professores, que partilharam a experiência de ensinar esta arte a pessoas com deficiência profunda: “é lindo e apaixonante”. No próximo dia 28, a companhia apresenta uma peça para os parceiros da Amorama.
Integrall: Criaram a companhia de teatro ÉTOMBOM de propósito para a Amorama, Associação de Pais e Amigos de Deficientes Profundos?
ÉTOMBOM: O que nós criámos foi um projeto porque, na realidade, a companhia de teatro somos todos: nós, os utentes e a equipa da Amorama.
António Borges e João Dacosta são os fundadores, encenadores e professores da companhia de teatro ÉTOMBOM/Amorama/DR
Integrall: Criaram a companhia de teatro para os utentes da Amorama?
ÉTOMBOM: Sim, foi para eles. Apesar de já termos tido utentes que agora já não estão connosco e outros que entraram recentemente, tudo o que nós temos feito e experimentado é para Amorama e para os nossos utentes. A companhia é composta por todos nós – este é o formato que achamos que faz sentido aqui.
“Uma das particularidades é o facto de os atores terem deficiência profunda, a outra é o facto de serem os utentes os atores, que participam na peça do princípio ao fim: pensam no cenário e nas histórias”
Integrall: O que é que este projeto tem de particular, para além dos utentes terem patologias como deficiência profunda?
ÉTOMBOM: Uma das grandes particularidades é, realmente, as suas patologias específicas, a outra é o facto de eles serem os atores, os artista, são eles que representam. Os cenários e as histórias que usamos são criadas com eles. Existe, também, a singularidade deste projeto acontecer dentro de uma instituição onde muitos deles vivem ou passam a maior parte do seu tempo e ainda, a questão de o projeto ir para além do desenvolvimento das expressões e da criação artística, ou seja, eles participam do princípio ao fim.
“Este é um projeto de vida”
A companhia de teatro ÉTOMBOM é totalmente composta por pessoas com deficiência/DR
Integrall: Apesar de ambos já terem uma carreira consolidada no teatro e na música, nunca tinham feito nada deste género. Foi um desafio?
ÉTOMBOM: Muito, aliás, está a ser. Nós sentimos logo que este é um projeto de vida. Quando começámos a pôr as ideias no papel, sentimos ambos que era um projeto de vida, que era algo muito especial, porque, aqui, é o teatro que vai ao encontro deles, não são eles que vão ao encontro do texto, aqui é tudo adaptado: alguns conseguem decorar textos e nesses casos, nós trabalhamos o texto, com outros trabalhamos muito a fisicalidade, trabalhamos muito o toque, trabalhamos muito em adaptação. Além disso, eles dão-nos sempre as ideias, ou seja, cada pequena coisa é uma conquista, é uma vitória. As coisas ganham contornos que não víamos antes e também nós passámos a dar importância a essas coisas: mexer um dedo – algo que, para eles, pode ser muito relevante.
“Ao criar a nossa companhia (de teatro) quisemos que estivesse ao alcance de todas as pessoas independentemente do tipo de patologia que possam ter, pois acreditamos que em todos nós há um artista”
Integrall: Este desafio foi-vos lançado pela Amoma?
ÉTOMBOM: Soubemos que a Amorama precisava de animadores socioculturais para os fins de semana e através de uma conversa com o Miguel Reis, que faz parte da direção da instituição, pensámos que podíamos fazer outra coisa: criar uma companhia de teatro – algo que já havíamos pensado -, porque já andamos juntos noutros projetos teatrais e musicais, que ainda hoje mantemos, paralelamente. O mote estava lançado para criar algo importante: levar o teatro e a arte às pessoas que mais precisam e serem eles os artistas, serem eles o foco, as estrelas. Ao criar a nossa companhia quisemos que estivesse ao alcance de todas as pessoas, independentemente do tipo de patologia que possam ter, pois acreditamos que em todos nós há um artista.
Integrall: Criar uma companhia de teatro para uma Instituição Particular de Solidariedade Social é inédito em Portugal?
ÉTOMBOM: Existem grupos de teatro feitos com pessoas com deficiência, mas uma companhia totalmente adaptada a deficientes mentais, não temos conhecimento. Achamos que pode ser original, mas o país e o mundo são muito grandes e provavelmente poderá existir.
Integrall: A companhia ÉTOMBOM conta com a ajuda de toda a equipa técnica da Amorama nas peças de teatro?
ÉTOMBOM: Sim,existe a participação de toda a equipa técnica nas peças, com um papel muito importante e até complementar – sem a equipa e a visão da direção, nada disto seria possível. Este é o espírito que a equipa da Amorama tem. De destacar ainda a importância da Joana Barreto, que trabalha na instituição e faz, com eles, belas coreografias de dança. É um trabalho conjunto em que não pensamos só no resultado, interessa o percurso, interessa cada dia, interessa o caminho, interessam os utentes e no caso dos mais incapacitados, as pessoas da equipa técnica representam, como atrizes – são todas mulheres -, com uma entrega e dedicação extraordinária, todos os dias.
A equipa técnica da Amorama entra nas peças de teatro/DR
Integrall: É diferente ensaiar uma peça de teatro com pessoas com deficiência/ dependentes?
ÉTOMBOM: É e não é. Não é porque somos todos pessoas, todos fazemos coisas e o corpo funciona da mesma forma para todos, portanto, nesse sentido, não há diferença para os outros atores. Depois, há muitas diferenças e, como dizíamos, cada pequena coisa é uma grande vitória, como por exemplo, memorizar um texto.
Alguns têm incapacidades físicas e mentais, outros há que não têm nenhuma incapacidade física e, desse ponto de vista, podem fazer tudo: caminhar, correr, baixar-se. Do ponto de vista mental, também há graus diferentes, mas qualquer conquista pode ser uma grande vitória e isso permite-lhes desenvolver coisas absolutamente incríveis que ao início achávamos que iam ser quase impossíveis, embora, no âmago, acreditássemos serem sempre possíveis. Isso é uma coisa, outra coisa é percebermos o tempo que os leva a chegar lá e esse, demora muito, mas o que importa é o ator perceber aquela intenção. Nós não impomos o texto, aliás, na verdade, nem impomos uma intenção, nós damos uma ideia e depois, vamos tentar trabalhá-la, esmiuçá-la ao máximo. Muitas vezes, os utentes dão-nos outras ideias, que nós agarramos para a construção da personagem e dos diálogos entre eles.
Integrall: Como é que se prepararam para este projeto? Aprenderam com alguém ou foram autodidatas?
ÉTOMBOM: Ambos vimos da música, um de nós tem experiência em animação sociocultural, que tem uma grande componente teatral e o outro tem experiência de teatro, em várias companhias e isso deu-nos muitas das bases que implementamos, apesar de nunca termos feito nada do género antes, mas, de facto, sem a nossa experiência anterior, isto não era possível. Nós temos os exercícios todos bem delineados, projetamos cada sessão, tentando que os utentes exercitem, ao máximo, as capacidades e hoje, eles estão muito mais à vontade e conseguem fazer muito mais coisas do que há três anos, quando iniciámos este projeto. Isto é uma partilha, é uma troca. Aliás, entre nós há muita conversa, há uma troca de ideias constante, incluindo com a equipa técnica, porque todos, somos a companhia.
Momento de “pausa” dos atores/DR
Integrall: Quanto tempo é que leva a encenar uma peça para pessoas com deficiência?
ÉTOMBOM: Os ritmos deles são diferentes e o seu tempo também. Tudo é adaptado em função de pequenos objetivos e não do resultado. Por exemplo, tivemos uma peça de 60 minutos que levou um semestre a ser preparada, a convite da Proteção Civil e ao princípio, nós próprios, não sabíamos se ia ser exequível, não sabíamos se os nossos atores iriam decorar as cenas.
“Ensinar pessoas com deficiência (profunda) é lindo, é apaixonante e também desafiante, mas, somos uma família, eles são a nossa família: quando chegamos somos sempre recebidos com beijos e abraços”
Integrall: Como é ensinar pessoas com deficiência?
ÉTOMBOM: É lindo, é apaixonante e também desafiante, mas, somos uma família, eles são a nossa família: quando chegamos somos sempre recebidos com beijos e abraços e as nossas sessões começam sempre com uma conversa, desde o primeiro dia que o fazemos. O contacto com eles é magnífico e muito importante: podermos partilhar com eles e eles poderem partilhar connosco as suas experiências desta forma, considerarem-nos como iguais, porque, na verdade, eles passam aqui muito tempo e nós somos duas pessoas que vimos de fora. Então, para desenvolvermos o trabalho com eles, é importante que nos considerem iguais.
Paralelamente, gostávamos de enaltecer que a motivação deles é muito superior à de pessoas sem deficiência.
“A motivação deles (atores com deficiência profunda) é muito superior à de pessoas sem deficiência”
Integrall: Como é que tem sido a evolução dos vossos atores?
ÉTOMBOM: A evolução e a sua entrega, enquanto atores, tem sido ótima. Claro que o grupo é variado e, portanto, há diferenças de uns para os outros, mas tem sido ótima.
“As pessoas com deficiência ganham vida ao terem uma companhia de teatro”
Integrall: O que é que ganham as pessoas com deficiência em terem uma companhia de teatro?
ÉTOMBOM: Vida. Poderem expressar-se, ganhar cultura, desenvolverem linguagens, explorar a fisicalidade. Além disso, consideramos que é muito importante o trabalho da imaginação e da criatividade, ou seja, temos esse lado super sensível na nossa companhia – todos nós temos a capacidade de sermos crianças, de sonhar e de viver – é isso que importa. Claro que, paralelamente, os nossos atores trabalham uma série de coisas desde as muito simples, que não conseguiam fazer – inclusive do ponto de vista cultural, nomeadamente, ao nível da aprendizagem dos textos, como é que funciona uma personagem, as emoções dessa personagem, as músicas que nós usamos, algumas que eles não costumam ouvir.
“Todos nós temos a capacidade de sermos crianças, de sonhar e de viver – é isso que importa”
Integrall: Como é um dia vosso com eles?
ÉTOMBOM: Varia, mas fazemos exercícios de teatro, o jogo teatral para fortalecer a confiança, a concentração e a improvisação, mas, também, exercícios musicais, aliás, temos um hino. Na verdade, há dois hinos: um oficial e outro que foi uma criação deles: cada um criou uma frase donde fizemos a letra e musicámos – o outro a convite do presidende da Amorama, José Cabaços dos Reis, foi uma homenagem ao Estrela da Amadora, uma vez que a instituição fica na Amadora. O que fizemos foi utilizar a música do clube com letra adaptada pela Amorama – também temos instrumentos na sala: bombo, guitarra, piano, boomwhackers – todos juntos somos uma orquestra.
“Encenar uma peça desta dimensão envolveu muita preparação prévia, por isso, só temos de agradecer à equipa e à direção da Amorama, que sempre nos apoiou e apoia em tudo”
Os encenadores da companhia ÉTOMBOM e membros da direção da Amorama/DR
Integrall: Quais foram as maiores conquistas deles ao longo destes três anos?
ÉTOMBOM: A nossa primeira peça foi uma conquista, mais uma vez, também, muito graças à equipa técnica da Amorama. Conseguimos fazer uma apresentação nos Recreios da Amadora, que é um palco com todas as condições. Encenar uma peça desta dimensão envolveu muita preparação prévia, por isso, só temos de agradecer à equipa e à direção da Amorama, que sempre nos apoiou e apoia em tudo.
Integrall: Um momento inesquecível?
ÉTOMBOM: O dia da família, que, na verdade, foi um prolongamento, do espetáculo que apresentámos nos Recreios da Amadora, a convite da Proteção Civil. A partir daí, surgiram outros convites para apresentar a peça em outros sítios, o que é fantástico para uma companhia. No dia da família e uma vez que muitas não puderam assistir à apresentação nos Recreios da Amadora, transformámos a peça num teatro imersivo, que aconteceu nos três pisos da Amorama: as famílias faziam um percurso e cada sala tinha uma parte da peça adaptada e feita à medida, com a participação de toda a equipa, que, é realmente, incansável. Elas fazem tudo: os cenários, adereços e alguns figurinos. Toda a produção, toda a logística que uma peça destas envolve é surreal.
A ÉTOMBOM criou a peça “Quando a Terra Tremeu” feita a convite da Proteção Civil/DR
Integrall: Um momento caricato?
ÉTOMBOM: A peça que fizemos para a Proteção Civil era sobre os cuidados a ter em caso de terramoto. Após a peça, a equipa da Amorama elaborou e produziu um pequeno vídeo, em que há uma cena no corredor da instituição com zombies, representado pelos nossos utentes, ao som do Michael Jackson, que é absolutamente fantástica.
“Transformar pessoas com deficiência em atores é um desafio, mas, na verdade, só é preciso ter uma boa dose de amor e de imaginação, porque as coisas são adaptadas àquilo que eles podem dar”
Integrall: Como é que é transformar pessoas com deficiência em atores?
ÉTOMBOM: É um desafio, mas, na verdade, só é preciso ter uma boa dose de amor e de imaginação, porque as coisas são adaptadas àquilo que eles podem dar.
Integrall: O que é que já aprenderam com eles?
ÉTOMBOM: Muita coisa, mas há algo de caras que é o amor, percebermos que o amor está nas pequenas coisas. A vida mostra-nos, impõe-nos, cada vez mais, o tempo e o ritmo das cidades, que são uma correria e quando estamos com eles, esse tempo morre, deixa de existir e a vida passa a ter outro valor. Eles ensinam-nos, também, todos os dias, que o ser humano é ser humano, não interessa se tem deficiência, ou não. Aliás, até diria que todos nós somos um bocadinho deficientes, cada um à sua maneira: eles só nos mostram, diariamente – um bocadinho mais do que outros – que todos temos alguma limitação. Eles lembram-nos de valorizar as coisas simples da vida e a própria humanidade, porque, às vezes, esquecemo-nos disso, estamos num sítio de perfeição, em que temos que ser perfeitos e em que as coisas têm de acontecer de uma determinada forma; tudo vem empacotado, hermeticamente bem selado e muito bonitinho num invólucro, que, muitas vezes, não é verdadeiro – eles mostram-nos, todos os dias, onde é que está a verdade, em representação, que é ainda mais bonita.
“Com eles (pessoas com deficiência profunda) aprendemos que o amor está nas pequenas coisas (…) Eles ensinam-nos, também, todos os dias, que o ser humano é o ser humano, não interessa se tem deficiência, ou não”
Integrall: Pensam em tornar estas peças abertas ao público em geral?
ÉTOMBOM: Sem dúvida, esta é uma companhia de todos e para todos. Agora, claro que nos exige sempre certas condições, por exemplo, a questão técnica dos acessos aos palcos. Portanto, para acontecer para o público em geral, precisamos sempre de certas condições, mas é nossa intenção.
As peças de teatro com pessoas com deficiência exigem condições técnicas como o acesso aos palcos/DR
Integrall: É possível tornar estas peças itinerantes?
ÉTOMBOM: É possível, mas tudo tem que ser adaptado.
Integrall: Pensam levar o vosso trabalho a outras instituições?
ÉTOMBOM: É algo que já falámos, o tema já esteve em cima da mesa, mas, neste momento, no curto prazo, não temos um projeto para outra instituição.
Integrall: O que é que segue na ÉTOMBOM? Uma orquestra?
ÉTOMBOM: Sim, pensamos desde o início, mas, apenas, superficialmente. Agora, temos, realmente, a ideia de uma orquestra, que é para servir também o teatro, embora funcionando separadamente. Temos muita vontade de que haja uma banda e orquestra – era espetacular para complementar a companhia nas peças e por outro lado, apresentar um concerto de forma autónoma, fazendo um trabalho independente e paralelo, mas os utentes têm o tempo muito ocupado, portanto, é preciso ponderar.
“O teatro é uma forma importante de integrar as pessoas com deficiência profunda”
O Integrall esteve à conversa com a Amorama – Associação de Pais e Amigos de Deficientes Profundos, vocacionada para o atendimento a cidadãos deficientes/dependentes. José Cabaços dos Reis, presidente da direção da Amorama e Leonor Correia, diretora técnica do Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão (CACI) explicaram os benefícios de terem uma companhia de teatro na instituição.
Integrall: Porque é que a Amorama decidiu ter uma companhia de teatro? Amorama: O nosso objetivo é ampliar sempre as nossas atividades, uma vez que são importantes na inclusão das pessoas com deficiência, que aqui temos e o teatro é uma forma importante de as integrar. Muitas vezes, olha-se para estas pessoas e pensa-se que não vale a pena… Integrall: São um pouco excluídas? Amorama: Sim, é a exclusão, à partida, o que é profundamente errado. Já temos falado entre todos e chegámos à conclusão que temos razão em promover diversas formas de inclusão – com o desporto e a cultura. No caso do teatro, há algum tempo que procurávamos alguém que fizesse esse trabalho, tentámos alguns voluntários, mas nunca deu resultado. Foi então que o João Dacosta e o António Borges nos propuseram este projeto e avançámos. É um trabalho que nos tem agradado bastante e os nossos utentes/atores gostam muito deles. Integrall: Tentam envolvê-los ao máximo? Amorama: Sim, e mesmo aqueles que têm uma deficiência mais profunda, participam nas sessões e se não as fazem na totalidade, pelo menos, são estimulados de outra forma. Queremos envolvê-los no máximo de coisas em que possam participar e no teatro eles conseguem participar, assistir. Integrall: A Amorama é a única Instituição Particular de Solidariedade Social em Portugal com uma companhia de teatro? Amorama: No concelho da Amadora não há, mas acreditamos que no país haja algo parecido. Integrall: A companhia de teatro está integrada no Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão (CACI) da Amorama? Amorama: Sim, que anteriormente se chamava Centro de Atividades Ocupacionais (CAO). A mudança do nome tem a ver com mudança de paradigma. Antes estava direcionado para a ocupação, ou seja, o objetivo seria retirá-los do isolamento da casa deles e estarem ocupados durante o dia. Neste momento, o objetivo é promover atividades que também envolvam a inclusão deles na comunidade, na sociedade. Isso pode ser para um utente continuar com atividades ocupacionais, simplesmente, e para outros ter atividades socialmente úteis, atividades na comunidade conseguir trabalhar num café, por exemplo, quatro horas por dia. O leque é muito grande. Integrall: Os vossos utentes têm todos deficiência profunda? Amorama: Os nossos utentes todos têm deficiência intelectual. Temos muitos, pelo menos metade, com consciência profunda e muito dependentes, temos menos de metade com autonomia para algumas coisas e temos uma pequena porcentagem que conseguiriam fazer atividades socialmente úteis, de estarem lá fora na comunidade e depois, virem cá fazer só algumas atividades. Integrall: Para além da inclusão, o que é que a companhia de teatro ÉTOMBOM lhes proporciona? Amorama: Proporciona-lhes um convívio bastante grande e a integração na interpretação dos papéis que lhe estão reservados de uma maneira entusiasta – mesmo, nós, como espectadores sentimo-nos bastante ligados às peças. Há um profissionalismo muito grande da companhia de teatro em relação à matéria. Tivemos um espetáculo aqui dentro a propósito do dia da família, que foi espetacular, só tenho pena que isto não tenha sido gravado para mostrar à comunidade, integrado num programa televisivo. Os nossos utentes são um exemplo para a população, as suas peças deviam ser divulgadas para a opinião pública saber e para ser sensibilizada para a inclusão.
Na Amorama, em todas as nossas intervenções, seja no teatro, em sala ou nas terapias, o importante não é deficiência. Cada pessoa é uma pessoa, tem um nome, tem coisas que gosta, tem coisas que não gosta e é isso que nós vemos; nós não vemos que aquela pessoa tem paralisia cerebral. Integrall: Nas sessões, o que é que os utentes ganham? Amorama: Ganham poderem representar, poderem fantasiar coisas – no dia a dia, nós tentamos sempre puxá-los um bocadinho para a realidade -, ganham momentos em que lhes mostram que são capazes, conseguem ser muito estimulados em todos os sentidos: têm música, têm dança, têm vários exercícios que os envolvem completamente e isso é o mais importante. Integrall: Que melhorias é que tem observado nos vossos utentes desde que este trabalho está a ser desenvolvido pela ÉTOMBOM? Amorama: Realçamos a confiança, porque, a maioria, pelo menos, os mais autónomos, têm consciência que têm um problema, que não são iguais e foi-lhes dito a vida inteira que não são iguais. Ninguém aqui é igual, mas eles sempre sentiram que eram mais diferentes que os outros e isso tira-lhes um bocadinho a confiança quando querem investir e sentem que não vão ser eficazes, portanto, o teatro tem ajudado muito nisso: eles podem libertar-se, podem ser quem eles quiserem, podem dizer as maiores barbaridades – esse tem sido o principal ganho, mas ganham muitas outras coisas, como a visibilidade de mostrar aquilo que são capazes e possibilidade de serem estimulados de outra forma e sobretudo, ganharam dois amigos – o João Dacosta e o António Borges – que também é muito importante. Integrall: Qual é o feedback que recebem das famílias? Amorama: É muito difícil de chegar às famílias porque, também a elas, sempre lhes foi dito que os filhos eram muito diferentes, que não eram capazes e é-lhes difícil irem ver uma peça, criam uma expectativa e têm receio que saiam goradas, acabando por se afastar um bocadinho. Integrall: Acham que é mais do mesmo? Amorama: Exatamente, mas aqueles que vieram ao espetáculo do dia da família, envolvem-se muito mais e já falam mais com eles também sobre isso. Integrall: Consideram que a companhia ÉTOMBOM é uma mais-valia para a Amorama? Amorama: Sim, é uma mais-valia importante. Aliás, já devem estar a começar a preparar a festa do Natal, que é uma festa importante porque é a oportunidade para apresentarmos aos pais tudo o que se faz aqui nesta área do espetáculo; temos uma grande expectativa. Integrall: A equipa técnica também entra nas peças de teatro? Amorama: A Amorama destaca-se das outras instituições por isso, porque temos pessoas que gostam muito de trabalhar aqui, pessoas que gostam muito dos nossos utentes e que por isso, se envolvem em todas as atividades: se é preciso dançar, dançam, se é preciso cantar, cantam, se é preciso fazer o pino, fazem. É algo de que nos orgulhamos porque quando estamos em palco somos todos iguais, quando estamos a ensaiar, somos todos iguais. Portanto, a equipa da Amorama tem essa vantagem porque está motivada para participar em tudo e fazer o que for preciso. Integrall: Há uma orquestra na calha? Amorama: Ainda está em sonhos, vamos ver quando é que poderá nascer, mas é um objetivo bastante desejado e aguardado com alguma expectativa. Integrall: As peças são abertas ao público ou são apenas para os familiares e amigos dos vossos utentes? Amorama: A maior parte dos espetáculos que fizemos foi encomendada pela câmara, pelo serviço de Proteção Civil e esses não estavam propriamente abertos às famílias e depois, fizemos o do dia da família, que foi só para as famílias. Integrall: No próximo dia 28, vão ter uma peça para os vossos parceiros… Amorama: Exatamente. Integrall: Quem são os vossos parceiros? Amorama: Os nossos parceiros são todas as entidades, que nos apoiam de alguma forma, tanto com donativos, como projetos. Estamos a falar, por exemplo, do Continente, Pingo Doce, da Lusíadas Saúde, da câmara municipal da Amadora, da junta de freguesia e outras associações. Integrall: Já pensaram abrir estas peças ao público? Amorama: Estamos a estabelecer alguns contactos, mas ainda não houve resposta. Integrall: Balanço destes três anos com a companhia de teatro ÉTOMBOM? Amorama: O balanço é altamente positivo, aliás, nós até gostaríamos que eles viessem mais vezes por semana para ampliar as capacidades dos nossos atores. Integrall: Fazem falta mais companhias como a ÉTOMBOM? Amorama: Sim, fazem falta companhias de teatro como esta a trabalhar em instituições. A competição é boa. No caso do teatro e das companhias, quando vamos às iniciativas patrocinadas pela câmara gostamos de mostrar que temos. A competição é sempre boa, participar não chega, o que interessa é dar o nosso melhor e para dar o nosso melhor, temos que trabalhar para isso. Portanto, se trabalharmos para isso e formos os melhores, espetacular, se não formos, temos de trabalhar.