À semelhança do ano passado, a palestra de Susana Dias Ramos foi a mais aguardada da 2ª edição do Love Summit, que decorreu este mês em Lisboa. A “alma” do evento, como lhe chamou o organizador, Eduardo, Torgal, subiu ao palco para falar de “Amor, Paixão e Desejo” e com a forma leve e descontraída que a caracterizam arrancou gargalhadas da audiência, apesar da seriedade do tema.
À margem do evento, em conversa com o Integrall, a psicóloga, terapeuta de casais e especialista em sexologia clínica, explicou o que é amar e saber ser amado e revelou o “segredo” das relações duradouras.
Integrall: As pessoas querem aprender a amar-se melhor?
Susana Dias Ramos: Às vezes, acho que não, o que é uma pena. Eu acho que as pessoas querem aprender a defender-se melhor das relações e eu acho que isso acaba por fazer com que as relações se percam, mais cedo ou mais tarde. Eu acho importante, eu acharia importante que as pessoas se entregassem às relações e que aprendessem a respeitar o amor, mas nós cremos que o amor é inato. Nós cremos que nascemos a saber amar, que nascemos a saber fazer amor, que nascemos com tudo ensinado e que não precisamos de aprender a fazer absolutamente nada, eu tenho pena.
“Era importante que as pessoas se entregassem às relações e que aprendessem a respeitar o amor, mas nós cremos que o amor é inato”
Créditos: Instituto Eduardo Torgal
Integrall: Crês que há muita falta de amor, a começar pelo amor próprio?
Susana Dias Ramos: Às vezes, sinto que sim. Às vezes, pessoas têm tanta falta de amor e de aprender coisas acerca do amor que acham que amar o outro é amar-se a si e que isso depende da felicidade do outro, não é assim que funciona. Nós temos que nos amar de tal forma que não precisemos de ninguém e o importante é nós sabermos que não precisamos daquela pessoa, só (a) queremos. Nós queremos aquela pessoa para completar aquilo que falta na nossa vida, mas nós não precisamos dela e se estivermos bem sós e tivermos um complemento na vida – que faz com que seja ainda melhor termos alguém – é uma delícia.
Susana Dias Ramos subiu ao palco no 2º dia do Love Summit/ Créditos: Integrall.pt
Integrall: Amamos como nos amaram na infância?
Susana Dias Ramos: Em parte, nós conseguimos dar a volta a isso com terapia, mas, na grande maioria das vezes, sim, nós amamos como fomos amados e com aquilo que aprendemos em casa – nós somos macaquinhos de imitação.
Integrall: Como é que uma pessoa que não se sentiu amada consegue amar-se?
Susana Dias Ramos: É um processo. Amar-se acima de tudo, às vezes, é um processo difícil e é mesmo importante procurar ajuda. Nós não conseguimos sozinhos. Esta ideia do autodesenvolvimento, de livros, de cursos e técnicas é uma terapia é breve e rápida – a terapia é muito importante – e nós conseguimos aprender técnicas para percebermos o quão importante é o nosso amor próprio, a nossa autoestima. Nós temos que viver connosco 24 sobre 24 horas, todos os dias da nossa vida e se nós não amarmos a pessoa que vive dentro de nós, vai ser tramado, portanto, é um processo.
Integrall: É um processo reversível.
Susana Dias Ramos: Tudo na nossa vida é reversível. Nós somos de uma resiliência tremenda a tudo na vida e temos que aceitar isso da melhor forma.
“Há cada vez mais divórcios porque as pessoas não têm paciência umas para as outras, não querem fazer um esforço, não acham que o casamento seja uma coisa assim tão importante”
Integrall: Há cada vez mais divórcios em Portugal?
Susana Dias Ramos: Há cada vez mais divórcios porque as pessoas não têm paciência umas para as outras, não querem fazer um esforço, não acham que o casamento seja uma coisa assim tão importante, eu arriscaria mesmo a dizer que até casam menos, as pessoas têm tendência já a ficar juntas porque, quando acabar, é mais fácil dividir património, portanto, não há um esforço, não há uma ideia enraizada do que é a família tradicional e de como manter os matrimónios a longo prazo.
Integrall: Ingredientes para uma revelação saudável?
Susana Dias Ramos: Paciência e respeito. Eu acho que respeito, acima de tudo. Se respeitarmos a pessoa que está connosco, como queremos ser respeitados, isso é 90 por cento do trabalho feito.
“Saber amar é saber priorizar a pessoa que está connosco (…) é priorizar os sentimentos dessa pessoa: se nós sabemos que há coisas que fazemos que magoam essa pessoa e nós não queremos saber, nós não estamos na relação certa”
Integrall: O que é saber amar?
Susana Dias Ramos: Boa pergunta. Saber amar é saber priorizar a pessoa que está connosco e quando eu digo priorizar, é priorizar os sentimentos dessa pessoa: se nós sabemos que há coisas que fazemos que magoam essa pessoa e nós não queremos saber, nós não estamos na relação certa.
“A falta de carinho que nós nutrimos por nós mesmos, às vezes, é flagrante e triste”
Susana Dias Ramos, com o filho Salvador, à conversa com o Integrall/Créditos: João Dacosta
Integrall: O que é saber ser amado?
Susana Dias Ramos: É respeitar o amor que nós temos por nós mesmos. Eu acho que é mais difícil ainda. É mais difícil nós respeitarmo-nos do que respeitarmos a outra pessoa, esta falta de carinho que nós nutrimos por nós mesmos, às vezes, é flagrante e triste.
Integrall: É preciso estar bem para poder estar bem numa relação com o outro?
Susana Dias Ramos: É preciso. É preciso nós estarmos bem equilibrados, porque, senão, nós vamos sugar a energia da outra pessoa.
Integrall: Mas à medida que o tempo avança, a mochila é cada vez mais pesada…
Susana Dias Ramos: E as pedras no caminho. É muito linda aquela lengalenga do castelo, mas não construímos castelo nenhum, só fica cada vez mais pesado até deixar a mochila pelo caminho.
Integrall: Como é que se vai aliviando o peso da mochila?
Susana Dias Ramos: Vamos deixando para trás as coisas que não interessam. Se, eventualmente, as coisas que sentimos nos magoam e não aportam felicidade da nossa vida, vamo-las largando. Nós não temos que guardar tudo, temos que compartimentar as coisas por forma a sempre felizes. É a única obrigação que nós temos na vida. O resto é música.
“Os relacionamentos são a área mais difícil das nossas vidas”
Integrall: Os relacionamentos são das áreas mais difíceis das nossas vidas?
Susana Dias Ramos: Eu acho que são a mais difícil, porque somos pessoas diferentes, com experiências diferentes, vidas diferentes, ensinamentos diferentes, tudo diferente e temos que levar uns com os outros. Portanto, qualquer relação – uma relação amorosa, uma relação familiar, uma relação profissional -, é tudo muito difícil.
Créditos: Instituto Eduardo Torgal
Integrall: Quais são os padrões da tua experiência que mais se repetem nos relacionamentos?
Susana Dias Ramos: O egoísmo. As pessoas são profundamente egoístas porque têm uma constante necessidade de validação que, muitas vezes, vem de um passado mal resolvido e aportam para a relação coisas que não têm nada a ver com a relação e isso estraga tudo.
Integrall: Porque é que, mesmo quando alguém toma consciência do seu padrão, continua a repeti-lo?
Susana Dias Ramos: Porque acha que está correto.
Integrall: Tu já ajudaste muitas pessoas?
Susana Dias Ramos: Eu já perdi a conta: vou a caminho de 24 anos de profissão. Já tenho a benesse de poder fazer os grupos, eu tenho os projetos “Sem tabus” e o “Sem segredos” ou onde eu reúno 200 mulheres de cada vez, este ano já são mais de 2000 mulheres.
Integrall: Como é que as pessoas chegam até ti para irem a esses grupos?
Susana Dias Ramos: Pelo Instagram. Os bilhetes até o final de 2026 estão esgotados, mas vou anunciar datas extra para o segundo semestre, porque esgota muito rápido e eu podia fazer salas maiores, mas, sinto que, se fizer salas maiores, não consigo ter a mesma proximidade com as pessoas. As datas de 2027 estão quase a sair.
Homens e mulheres procuram a ajuda da psicóloga/Créditos: Instituto Eduardo Torgal
Integrall: Quem é que te procura mais: mulheres ou homens?
Susana Dias Ramos: É igual. Antigamente, eram mais mulheres, mas de há uns anos para cá, é igual
Integrall: Quais são as maiores dificuldades que as pessoas sentem?
Susana Dias Ramos: As pessoas pedem ajuda, normalmente, em desespero, quando as coisas já correram mal e estão à beira de um divórcio ou quase a separar-nos, quando não estão bem, quando estão no fundo do poço. Não há um raciocínio organizado. Nós somos um carro e quando temos um carro, sabemos que precisamos de abastecer o depósito a determinada altura, não é deixar que o depósito acabe e depois procurar uma bomba de gasolina e o que acontece na área dos relacionamentos, na área do amor próprio, na área da psicologia, é que as pessoas, primeiro, gastam o depósito e só depois é que vão à procura de combustível e quando vão à procura de atestar, já não vão a tempo, já griparam o motor, já estragaram o carro todo e acaba por ser muito mais complicado. Nós temos que aprender a escutar as coisas à medida que elas vão aparecendo: escutar e resolver.
“Os casais devem sempre pedir ajuda ainda que não haja alerta para o fazer (…) A terapia de casal é uma terapia de equilíbrio”
Integrall: Em que fase do relacionamento é que os casais devem sentir que algo é um alerta para pedirem ajuda?
Susana Dias Ramos: Sempre. Ainda que não haja alerta para pedir ajuda, a terapia de casal é uma terapia de equilíbrio. Eu não digo que tenha que ser feita sempre, mas imagina, o casal está junto há uns anos, discutem por coisas mundanas, do dia-a-dia, mas há uma determinada altura em que a mulher e o homem ficam tristes, há muita tristeza inerente. Antigamente, fazíamos as pazes com mais facilidade e agora já ficamos um dia ou dois mais torcidos por coisas pequenas e normalmente, é por causa dos filhos, das regras, da monotonia do dia-a-dia. Porque não procurar alguém que faça uma mediação? Não tem que ser obrigatoriamente uma terapia, pode ser uma mediação, aprenderem-se a escutar os dois, porque os casais, numa discussão, não se escutam, escutam-se a si próprios.
“As relações estão, cada vez, mais voláteis porque nós já não perdemos tempo uns com os outros, a olhar nos olhos, a conversar, o que é triste”
Integrall: Essas são as maiores dificuldades que os casais têm. E os solteiros?
Susana Dias Ramos: Os solteiros estão muito esquisitinhos, porque que esta coisa das redes sociais, das aplicações, são como um menu. Nós sabemos que há muito peixe no mar, então, se pescamos um robalo, queremos uma tainha, se pescamos uma tainha, queremos uma dourada e assim se não vai a lado nenhum. Nós desaprendemos a construir coisas com as pessoas, as relações estão, cada vez, mais voláteis porque nós já não perdemos tempo uns com os outros, a olhar nos olhos, a conversar, o que é triste.
Susana Dias Ramos em entrevista ao Integrall/Créditos: João Dacosta
Integrall: A que mudanças positivas é que já assististe nos casais e solteiros que acompanhas?
Susana Dias Ramos: Há muitas. Quando as pessoas se entregam a resolver as coisas é muito bom, saberem que as coisas estavam tortas e que, de repente, começam a ver pequeninas mudanças aqui e ali, a construir e a sentir coisas boas. Receber um sorriso nos lábios, quando alguém chega à minha consulta ou me traz um bombom ou uma flor, só para agradecer, é bom sinal. Troco muitas mensagens com os meus com os meus clientes e às vezes, eu recebo uma mensagem a dizer: “hoje chegou e trouxe-me uma flor, era só uma flor, mas foi incrível”. Há um cliente, que acompanho já há um tempo, que se separou, entretanto, começou a namorar e pediu-a em casamento, há dois meses e mandou-me um vídeo desse pedido de casamento, em Cabo Verde – é uma coisa com que eu vibro, a sensação que eu tenho é que eu estou a viver o filme dentro dele e é algo que me alimenta muito.
Integrall: Onde é que é possível encontrar-te?
Susana Dias Ramos: Em Braga, na clínica Lounge by Susana Dias Ramos, mas é possível encontrar-me, também, online com bastante facilidade. Eu e as minhas colegas damos consulta em todo o lado, de forma online ou presencial.
Créditos: João Dacosta
Integrall: Fazem falta mais eventos como este?
Susana Dias Ramos: Faz falta às pessoas participarem nos eventos, porque podiam ter participado do dobro das pessoas, mas, como eu digo, deixam-se dormir. Foi o que eu disse na palestra: a facilidade com a que nós nos deixamos dormir para estes assuntos é uma burrice.
Integrall: Os relacionamentos deviam ser ensinados nas escolas?
Susana Dias Ramos: Deviam. Nós aprendemos a ler, aprendemos a escrever aprendemos a fazer contas, aprendemos a falar línguas estrangeiras, não aprendemos a amar nem a fazer amor.
Integrall: Uma mensagem amorosa para quem estiver a ler esta entrevista?
Susana Dias Ramos: Tenham coragem e vamos para frente.